Habitar o caminho
Entre idas e vindas, entres os trajetos, costumo anotar no bloco de notas do celular pensamentos e ideias. Muitas delas, oriundas de elaborações da análise que vão reverberando como uma onda, em frequência, dia após dia. As primeiras palavras desse texto nasceram dentro de um ônibus.
No fim do dia, o ônibus carrega mais do que pessoas. Carrega rostos cansados, olhos presos às telas dos celulares e uma curiosa ausência do estar. Os corpos ocupam os bancos, mas a mente já partiu. Está na vontade de chegar em casa, na próxima aula, no trabalho que ainda espera, no banho quente, na comida, no descanso. Quase ninguém está, de fato, dentro do ônibus.
Enquanto a cidade passa pela janela, seguimos habitando os mesmos pensamentos. A paisagem muda, mas nós pouco mudamos com ela. Oscilamos apenas entre necessidades imediatas: do cansaço à fome, da fome ao desejo de dormir. Tudo parece apontar para um único destino: chegar.
O ônibus é um lugar onde quase ninguém quer estar. Ele não é origem nem destino. É um intervalo. Uma conexão entre o que terminou e o que ainda não começou. Há nele uma mistura de exaustão com pitadas de arrependimentos e saudades pelo dia que se foi e de ansiedade pelo que ainda está por vir.
O passado e o futuro dividem o mesmo banco, enquanto o presente parece não encontrar lugar para se sentar.
Vivemos algo semelhante em tantos momentos da vida. Quando aguardamos uma resposta, uma mudança de trabalho, o início ou o fim de um relacionamento, uma decisão importante ou simplesmente a sensação de que “a vida vai começar agora”. Nesses períodos de transição, é comum tratarmos o presente como um inconveniente, um corredor que precisa ser atravessado o mais rápido possível. Mas talvez a espera não seja um vazio entre dois acontecimentos. Talvez seja justamente nela que algo deva ser olhado com mais atenção.
Há um tempo próprio para que algo possa ganhar forma. Nem tudo pode ser antecipado sem perder parte de sua potência. O sujeito também se constitui nos intervalos, nos tempos em que ainda não sabe, ainda não chegou, ainda não encontrou uma resposta definitiva.
Vivemos em uma época que promete atalhos para tudo. Aplicativos diminuem o tempo de espera, mensagens chegam instantaneamente, entregas acontecem no mesmo dia. Acostumamo-nos a acreditar que esperar é perder tempo. Mas existem travessias que não aceitam aceleração.
O ônibus continua seu percurso, mesmo quando temos pressa. Há um trajeto que precisa ser percorrido antes da chegada. Talvez a vida também seja assim. Nem sempre o que precisamos é chegar mais rápido. O que nos falta é aprender a habitar o trajeto. Porque é justamente nos lugares de passagem que, deixamos de ser quem éramos e começamos, sem perceber, a nos tornar diferentes do que éramos.

Continue a jornada
Leia também no blog
Onde começa o começo?
Começar não é romper com o que veio antes, mas atravessar o que já nos habita. Todo início carrega rastros, memórias e…
Ler artigo completo →
Perdi um guarda-chuva, será?
Hoje perdi um guarda-chuva que me acompanhava há mais de dez anos. Percebi que algumas perdas dizem menos sobre o objeto e…
Ler artigo completo →