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O que as redes sociais não contam sobre cuidar de si

Por psi.marialuizacrocha@gmail.com 4 min de leitura
O que as redes sociais não contam sobre  cuidar de si

Nunca se falou tanto em autocuidado.

As redes sociais nos lembram diariamente de beber água, fazer skincare, meditar, acordar às cinco da manhã, praticar exercícios, ter uma alimentação perfeita, escrever em um diário de gratidão e manter uma rotina impecável.

É curioso perceber que, muitas vezes, aquilo que deveria aliviar acaba produzindo mais uma lista de obrigações, muitas delas simplesmente irrealizáveis.

Se não conseguimos cumprir tudo, surge a culpa. E da culpa, a angústia. Afinal, parece que nem cuidar de nós mesmos estamos fazendo direito!

Mas será que isso é, de fato cuidar de si?

Aquilo que hoje chamamos de autocuidado se tornou, muitas vezes, um conjunto de práticas voltadas ao bem-estar individual. O cuidado de si, pensado por Michel Foucault, vai além disso. Ele não se restringe ao que fazemos por nós mesmos, mas diz respeito à relação ética que construímos com a nossa própria existência.

Foucault nos convida a pensar de forma um tanto disruptiva quando o assunto é cuidar de nós mesmos. Para ele, o cuidado de si não é uma coleção de hábitos saudáveis nem um investimento para nos tornarmos uma versão mais eficiente de quem somos.

Trata-se de um exercício constante de perceber como somos atravessados pelas normas, expectativas e discursos que organizam nossa vida para, então, perguntar se desejamos continuar vivendo dessa maneira.

Isso pode significar questionar se o trabalho que realizamos ainda faz sentido ou se apenas permanecemos nele por medo de mudar. Perguntar se aceitamos formas de tratamento que nos desrespeitam em nome da estabilidade. Observar se nossas relações mais íntimas nos permitem existir como somos ou se nos obrigam a ocupar papéis que já não nos cabem. Também implica reconhecer que nossas escolhas nunca são produzidas isoladamente. Elas são atravessadas pelas normas sociais que definem o que se espera de nós a partir do nosso gênero, da nossa raça, da nossa classe social, da nossa sexualidade e de tantos outros marcadores que participam da constituição das nossas subjetividades. Refletir sobre o cuidado de si é, portanto, perguntar o quanto nossas escolhas são, de fato, nossas, ou o quanto respondem às expectativas da família, da sociedade, das redes sociais e das estruturas que, muitas vezes de forma silenciosa, delimitam quem podemos ser.

Em outras palavras, o cuidado de si diz respeito à forma como escolhemos estar no mundo, aos valores que orientam nossa vida e ao sujeito que estamos nos tornando.

Cuidar de si não é consumir técnicas. É produzir um modo de existir.

Existem inúmeras formas de exigência e, curiosamente, grande parte delas é incorporada sem que percebamos. Muitas vezes passamos a viver segundo expectativas externas que pouco dialogam com aquilo que realmente desejamos ou acreditamos. É a lógica da produtividade, da performance e do reconhecimento que passa a orientar nossas escolhas. Nosso valor parece depender do desempenho, dos resultados, da capacidade de dar conta de tudo.

Esse modo de viver frequentemente esvazia o corpo, produz ansiedade e nos mantém na sensação constante de estarmos sempre em dívida conosco mesmos.

Mas há outras formas de orientar a vida. Não pelos imperativos da produtividade ou pelo desejo de corresponder às expectativas alheias, mas pelo desejo e pela ética que cada sujeito constrói pra si. Essa direção não exige que sejamos melhores, mais eficientes ou mais admirados. Ela nos convoca a habitar nossas escolhas com presença e responsabilidade. E, paradoxalmente, quando sustentamos esse caminho, o esforço deixa de ser apenas desgaste e pode se tornar fonte de vitalidade, sentido e satisfação.

Foi justamente essa diferença que me fez compreender o cuidado de si de outra maneira.

Cuidar de si não é acrescentar mais uma tarefa à agenda, mas pode ser retirar tudo aquilo que nos afasta da experiência de estarmos presentes.

Nem sempre esse cuidado será confortável. Às vezes ele exige interromper uma rotina que parecia funcionar. Outras vezes, implica reconhecer que certas formas de viver ou de se relacionar foram aprendidas e não necessariamente escolhidas.

O cuidado de si não promete uma vida perfeita. Também não elimina o sofrimento.

Refletir sobre o cuidado de si é perguntar como nos relacionamos com essas normas: de que maneira as reproduzimos, as negociamos ou, em alguns momentos, conseguimos resistir a elas e inventar outras formas de existir.”

Quem sabe cuidado de si comece justamente aí: quando deixamos de perguntar como deveríamos viver e passamos a perguntar que vida, afinal, desejamos sustentar.

análise cultura escritas inconsciente psicanálise sociedade

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