Perdi um guarda-chuva, será?
Hoje perdi um guarda-chuva que me acompanhava há mais de dez anos. Percebi que algumas perdas dizem menos sobre o objeto e mais sobre aquilo que nele depositamos. Abrir mão também é abrir a mão: criar espaço. Talvez a falta não seja um vazio a preencher, mas aquilo que mantém o desejo e a vida…
Hoje perdi um guarda-chuva.
Não era apenas um guarda-chuva. Havia mais de dez anos ele atravessava comigo diferentes cidades, chuvas, encontros e despedidas. Veio de outro país e, sem que eu percebesse, tornou-se parte de uma pequena geografia afetiva ou, para quem prefererir, tinha “valor sentimental“.
Quando dei por sua ausência, o incômodo não parecia caber na simplicidade do acontecimento. Como algo tão banal poderia produzir tamanho vazio?
Talvez porque nunca percamos apenas aquilo que está diante dos nossos olhos.
Há objetos que passam a sustentar lembranças, tempos, versões de nós mesmos. Não porque possuam esse poder, mas porque lhes emprestamos algo de nós. E, quando se vão, somos convocados a reconhecer que aquilo que parecia estar neles, na verdade, sempre habitou em outro lugar.
Perder é uma experiência curiosa.
Ela nos obriga a abrir mão.
E talvez haja uma diferença importante entre abrir mão e abrir a mão.
Abrir mão fala da renúncia. Abrir a mão fala do gesto. Da possibilidade de deixar de apertar, segurar aquilo que já não pode ser retido. Nenhuma mão fechada acolhe o novo.
Há algo da vida que só acontece quando deixamos escapar.
Não porque a perda seja desejável. Nem porque a dor deva ser celebrada. Mas porque toda perda rompe, ainda que por um instante, a fantasia de que podemos conservar tudo aquilo que amamos.
É nesse rompimento que algo se abre.
Doar e doer quase compartilham a mesma grafia. Talvez porque toda entrega implique uma pequena perda. E toda perda, quando atravessada, possa transformar-se em passagem.
A psicanálise nos lembra que não somos feitos da completude, embora almejada. Somos feitos da falta. É ela que nos move, que inaugura o desejo, que impede a vida de se encerrar sobre si mesma.
Talvez o sofrimento não esteja apenas em perder. Talvez esteja na insistência em acreditar que alguma coisa poderia nos completar para sempre.
Hoje perdi um guarda-chuva.
Mas o que ficou não foi exatamente a falta dele.
Ficou a pergunta sobre aquilo que, em mim, ainda resiste a abrir a mão.
E talvez seja justamente aí que um novo começo encontre espaço.
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