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Onde começa o começo?

Por psi.marialuizacrocha@gmail.com 3 min de leitura
Onde começa o começo?

Existe algo profundamente inquietante na ideia de começo. Costumamos dizer que “estamos começando” uma nova fase, um novo trabalho, um novo desejo, como se fosse possível inaugurar algo a partir do vazio. Mas será que algum começo é realmente um início absoluto?

Talvez toda ação, toda escolha e toda tomada de decisão sejam atravessadas por histórias anteriores, experiências já vividas, marcas que insistem em permanecer mesmo quando não são percebidas conscientemente. O que chamamos de “novo” pode ser, muitas vezes, a continuação de algo que já vinha sendo tecido silenciosamente dentro de nós.

Na psicanálise, especialmente a partir de Freud e de Lacan, o inconsciente não é entendido como um lugar estático onde memórias ficam armazenadas de forma organizada. Ele é marcado por traços, inscrições, restos de experiências que nem sempre foram simbolizadas ou registradas psiquicamente. Há vivências que nos atravessam sem que possamos nomeá-las naquele momento. Ainda assim, elas produzem efeitos.

Talvez a grande questão seja justamente essa: o que fazemos com aquilo que nos marcou sem ter sido reconhecido? Quantas vezes seguimos em frente sem validar partes importantes da nossa própria história? E o que seria necessário para seguir a partir dessas experiências — e não apesar delas?

Existe algo do “não registro” que retorna. Aquilo que não pôde ser elaborado encontra outras formas de aparecer: em sintomas, repetições, angústias, desejos aparentemente sem explicação. O inconsciente fala, ainda que não da maneira linear que esperamos. Ele atravessa o presente, modifica percepções e interfere em escolhas que imaginamos serem totalmente conscientes.

Por isso, talvez seja impossível pensar o presente como um tempo puro. Quando estamos diante de nós mesmos, olhando para aquilo que nos habita inconscientemente, quanto do passado existe no agora? E quanto de futuro já está sendo antecipado em nossos desejos, medos e fantasias?

Para Lacan, o tempo não se organiza apenas de maneira cronológica. Há um “tempo lógico”, um tempo subjetivo, em que passado, presente e futuro se atravessam constantemente. Uma experiência antiga pode ganhar sentido apenas anos depois. Um acontecimento aparentemente banal pode reorganizar toda uma narrativa interna. O sujeito, então, não vive apenas no instante presente; ele vive em uma trama temporal complexa, marcada pela linguagem, pela memória e pela falta.

Talvez seja por isso que certos desejos parecem surgir “de repente”, quando, na verdade, vinham sendo construídos há muito tempo. Como se algo estivesse amadurecendo silenciosamente até finalmente encontrar possibilidade de existência.

Dessa forma, inicio meus escritos pensando que, talvez, minha vontade de ser psicanalista e escrever não tenha começado há poucos anos. Talvez ela venha sendo construída ao longo da minha trajetória, nos encontros, nas perguntas, nos silêncios e nas marcas que ficaram sem que eu percebesse completamente.

A psicoterapia pode ser um espaço para simbolizar e validar aquilo que faz parte de quem você é, juntar as peças do mosaico que constitui sua história, reconhecer suas experiências e construir novos sentidos para sua trajetória.

Que tal iniciar a sua travessia com apoio profissional? Entre em contato pelo WhatsApp e saiba mais sobre o nosso atendimento psicológico clínico.

Começar não é romper com o que veio antes, mas atravessar o que já nos habita. Todo início carrega rastros, memórias e afetos que insistem em permanecer. O novo não nasce do vazio — ele se tece no encontro entre o vivido e o que ainda se abre.

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